terça-feira, 26 de setembro de 2017

Meu mundo nada ouvinte



O que você sabe sobre Língua de Sinais Brasileira?

Hoje é dia nacional do Surdo, vamos aprender e compartilhar?

Ouvinte é como são denominadas pela comunidade surda as pessoas que não são surdas. Meu mundo é bem ouvinte e quase nada surdo. O meu marido é ouvinte, a minha família é ouvinte, os meus amigos são ouvintes, trabalho com ouvintes e, resumindo, a vida fora de mim é ouvinte. Meu eu, no entanto, é surdo. Para evitar problemas de comunicação e prejulgamentos sobre mim, sempre procuro explicar minha condição a quem acaba de me conhecer. Normalmente, falar sobre isso gera uma avalanche de perguntas. É assustador como a maioria das pessoas com quem converso sabe pouco ou quase nada sobre surdez e Libras – e, quando pensa que sabe, acaba descobrindo que não.

Certo dia, numa reunião com um gerente de contas das redes sociais de uma livraria, perguntei quais elementos tornavam as páginas dela acessíveis. Ele relacionou alguns itens de acessibilidade para cegos e pessoas com baixa visão. Indaguei sobre acessibilidade para surdos, e a resposta foi: “Bem, está tudo em português, então eles podem ler”. De todas as situações com as quais já me deparei, a que mais me preocupa é a crença dos ouvintes de que o português é a ferramenta de acessibilidade para o surdo.
Vamos entender por que não?

Primeiramente, iremos, por favor, banir o termo “surdo-mudo” dos nossos dicionários. Na comunidade surda no Brasil, existem surdos oralizados e surdos libristas. Os primeiros, como eu, fizeram acompanhamento com fonoaudiólogos e foram treinados para aprender a falar. No meu caso foram quase dez anos de orientação fonoaudiológica. O surdo pode aprender a falar [1], e existem mecanismos para isso, como sentir as vibrações sonoras que ressoam em partes do nosso corpo (caixa torácica, nariz, garganta, bochechas). Na realidade, é um processo muito desgastante, mas possível. Os libristas comunicam-se somente por meio da língua de sinais brasileira e não se apoiam no uso de nenhuma língua oral: a língua materna deles é a de sinais. Dessa maneira, os surdos aprendem o português como uma segunda língua, assim como aprendem o inglês ou o francês os ouvintes que falam português. A Língua de Sinais Brasileira (LSB) não é como o Braille – um código que representa e traduz o português –, mas um organismo vivo: uma língua com distância linguística substancial do Português Brasileiro (PB). 

Vários pontos corroboram para o abismo entre a LSB e o PB, como as divergências encontradas em suas concepções linguísticas, lexicais, gramaticais e estruturais. Vejamos algumas dessas diferenças. 

Nas línguas naturais, a relação entre as palavras e as coisas é convencional, arbitrária. Por que a palavra garfo representa o material de garras com o qual se come? Por que as letras e o som da palavra garfo fazem você pensar nesse objeto? Em algum momento e de alguma forma, convencionou-se que a sequência de sons da palavra garfo designaria aquele objeto de garras com o qual se come, e não uma cadeira, aquele móvel no qual nos sentamos. As línguas naturais apresentam também o fenômeno da iconicidade. Quando digo que cachorro faz “au-au”, e relógio faz “tic-tac”, existe uma motivação sonora associando as palavras e as coisas. A LSB é mais icônica do que o PB, e nesse ponto reside uma sensível diferença entre eles, apesar de a primeira também possuir sinais arbitrários. E a iconicidade dela, é claro, não é baseada em motivação sonora, mas em motivação espaço-visual [2].  

Assim, o PB é uma língua oral que se manifesta por meio da escrita e da oralidade, ao passo que a LSB é uma língua espaço-visual que se manifesta por meio de sinais compostos por configurações de mãos, movimentos, expressões faciais, locais do corpo onde o sinal é produzido, e orientação da palma da mão. Partindo dessas premissas, é possível perceber que os usuários das línguas espaço-visuais e os usuários de língua oral expressarão seus pensamentos e sentimentos de maneiras extremamente distintas.

O compartilhamento mais significativo da LSB e do PB está no léxico. Porém, enquanto este tem idade quase milenar e mais de 200 mil palavras, aquela tem menos de dois séculos e uma quantidade infinitamente inferior de sinais. Imagine ler um texto de alta complexidade em uma língua que não é a sua. Você não teria dificuldade com o vocabulário? Assim se sentem os surdos frente ao português.

No artigo “Introdução à gramática de Libras”, Felipe (1997, p. 95) [3]  explica que na LSB “não há marca de tempo nas formas verbais; é como se os verbos ficassem na frase quase sempre no infinitivo. O tempo é marcado sintaticamente através de advérbios de tempo”. A frase Nós iremos para casa amanhã? seria traduzida pela sinalização “Amanhã + vamos + casa + expressão facial de dúvida”. A LSB tem uma gramática própria de línguas espaço-visuais e, por isso, não conta com vários elementos exclusivos de línguas orais, como artigos e preposições. 

Quanto a sua estrutura, a LSB é uma língua naturalmente topicalizada, enquanto no PB a ordem natural é SVO (sujeito + verbo + objeto). Em uma frase como “Ontem faltei aula” a ordem da sinalização seria “Ontem + aula + faltar”.

Existem estudos [4] que comparam os erros cometidos nas escritas produzidas por surdos e ouvintes cujo português é a segunda língua. Os especialistas identificaram que eles, além de adotarem estratégias parecidas para errarem menos – como escrever frases curtas e sem conectivos –, cometem deslizes bem similares.

Ao evidenciar essas diferenças, espero conseguir conscientizar e sensibilizar as pessoas sobre as muitas dificuldades do surdo com relação ao português e jogar alguma luz sobre o abismo que separa o mundo dos surdos e o dos ouvintes. O preconceito sofrido pelos surdos é enorme, e isso cria uma forte resistência de aceitação da língua majoritária. Ser surdo librista é viver como um estrangeiro no seu próprio país e ser obrigado, diariamente, a enfrentar barreiras de comunicação naquela casa que deveria ser a sua também.


[1] Por favor, levem em consideração que essa afirmação é bem genérica e existem variantes para que isso possa, de fato, acontecer.
[2] A Língua de Sinais Brasileira, como o gentílico já diz, não é universal – existem línguas de sinais americana (American Sign Language [ASL]), francesa, japonesa, e outras. Acredito que o equívoco se deve ao fato de os sinais da LSB serem interpretados como mímicas. A LSB tem uma gramática que rege a sua organização.  Assim como as línguas naturais, ela tem sinais arbitrários, cuja forma não tem correlação com o significado, em nada se assemelhando, portanto, com uma mera gesticulação. Saber que a língua é um fenômeno socialmente convencionado, nos permite entender que seria impossível haver somente uma língua de sinais no mundo – assim como é impossível haver só uma língua oral. Existe, no entanto, a tentativa de criação de uma língua mundial de sinais, o Gestuno (ou Sinais Internacionais), como é o Esperanto nas línguas orais.
[3] FELIPE, Tanya A. Introdução à gramática da Libras. In: BRITO, Lucinda F. et al. (Org.). Língua Brasileira de Sinais. Brasília: SEESP, 1997. v. 3. p. 81-107. (Série Atualidades Pedagógicas, n. 4). Disponível em: . Acesso em: 8 set. 2017.
[4] Ver, por exemplo, UM OLHAR sobre o texto do surdo. In: SALLES, Heloísa Maria Moreira Lima et al. Ensino de língua portuguesa para surdos: caminhos para a prática pedagógica. Brasília: SEESP, 2004. v. 1. p. 118-133. (Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos). Disponível em:
. Acesso em: 8 set. 2017.


Ps: Esse desenho super lindo é da Yasmin Hassegawa, obrigada querida!

terça-feira, 31 de maio de 2016

Sinceramente?




Nem Deus, ou se você prefere – o Universo, tirou de nós o livre arbítrio, quem, eu me pergunto, quem é você pra se achar dono do meu?

Eu vejo que o grande problema das pessoas é que elas estão sempre preocupadas com um buraco redondo que existe no meio da barriga: seus umbigos.

E é assim que surgem, às vezes sutilmente ou às vezes nem tanto, várias formas de preconceito. 

Eu detesto rosa. Odeio brincar de bonecas e não fazia questão nenhuma de agradecer se eu ganhasse uma. Também não sou muito fã de maquiagem: o último rímel que eu comprei faz um ano e está lacrado. "Mas você é menininha...".

Sou surda. No colégio todo mundo me chamava de lerda porque eu simplesmente não consigo acompanhar uma conversa onde trinta, ou só seis, pessoas falam ao mesmo tempo. Dois professores, um de dança e um de teatro, me humilharam porque ao me chamarem, não respondi – eu estava com meu aparelho desligado e não ouvi. Então eles simplesmente pensaram: que menina mal educada. Escolhi aprender Libras e muitas pessoas com quem eu convivo zombam da língua sem pensar que isto ofende. 

Estes são os preconceitos que eu já sofri... Mas existem tantos outros, muitos deles tão velados e por isso são mascaradamente inócuos. E não vamos falar de mais pesado ou mais leve porque para preconceito não existem nuances, ele é o que é: algo que ninguém deveria tolerar.

É tão simples... Mas cada vez mais raro encontrar aqueles que tenham capacidade de se colocar no lugar do outro – por menos preconceitos e umbigos, por mais tolerância e respeito.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Águas misteriosas




Um guerreiro quando sozinho
Vence batalhas do seu caminho
Mas quando numa guerra
Sem apoio cai por terra

Contra o cansaço
Só vence a compreensão

Contra a falta de tempo
Só vence a flexibilização 

Contra a força de vontade
Só vence a falta de mérito

E o ensino só é vitorioso
Onde não chega o orgulho, a soberba, e a intolerância 


terça-feira, 12 de abril de 2016

Valor que temos, qual?



Nunca terminei um namoro – eles foram terminados apesar de mim. A gente sente quando chega o fim: o desinteresse ascende no apagar das luzes. E no lugar de ir com o senso comum de que se ele não te valoriza, despreze-o, eu costumava pensar o que eu fiz de errado e no que poderia melhorar.

Então você me lê e pensa: nossa, que fraca. E eu respondo, porquê? Ora, se quando são derradeiros os momentos, recebendo a pior das atenções, eu consigo te dizer – olha como é grande o meu valor –, e ainda assim tu me desistes, então eu não tenho do que me arrepender. Porque uma coisa é certa: o meu valor reconheço em mim mesma e não em ti. 

Saber que eu dei o melhor de mim nos momentos bons e nos ruins é o meu lema moral. Saber que me olhei no espelho, e não pro meu umbigo, e me perguntei se precisava pedir perdão é o que me faz sentir ter crescido. Se te estendo a mão e não me alcanças, o que é possível fazer? Não depende só da gente.

Faz tempo eu escrevi sobre a pior morte ser de alguém que não está quando já tanto esteve, mas vive. É raro perceber que nem sempre alguém pode oferecer tudo o que você quer e pede. É uma forma de egoísmo e autopreservação incompreensíveis porque se somos todos singulares, como pode sentirmos e reagirmos em homogeneidade? As pessoas se perdem nesse caminho.

Faz tempo eu escrevi sobre a amizade ser compreensão e não obrigação. Não guarde mágoas e rancores porque não alcançaram a tua mão, se não há mais nada que pudesse ter sido feito. Baste-se reconhecendo seu próprio valor, sem se achar melhor do que os outros, e assim prevalece o respeito – por si e pelos outros.

Afinal pouco importa o onde, o modo, ou o tempo... Quando dois corações se reconhecem, respeitam e amam com pureza, o universo os une inquebrantavelmente.

domingo, 10 de abril de 2016

Metade


Amor, navegamos tranquilos
No curso natural da vida
Cada qual com seu estilo
De encarar nossa lida
Porque nossa sinfonia
Se perfaz com alegria
Compreensão, respeito e harmonia

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Laços



No permeio
Desses anseios
De quem se esmera
Inquieta espera
De uma conquista enfim

terça-feira, 5 de abril de 2016

Passos



Que longo o passo que vem
Mas se ele me tem (reservado)
Uma lágrima que me ablua
E um sorriso que me nutra
É em si fundamentado
E basta