quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Dois


Se relacionar é como fazer uma longa viagem. Viajar é, de certo modo, crescer na intimidade. É infinitamente revelador cada detalhe das nossas reações aos momentos bons, ruins, leves, difíceis, decisivos ou não.

Escuto bastante as pessoas dizerem que se relacionar é complicado. Gosto de pensar que os relacionamentos passam por etapas, algumas dolorosas e outras nem tanto. É o processo de conhecer o outro que encanta ou desencanta. Muitas vezes descobrimos que o ali onde não faz brilhar os olhos é insignificante perto dali onde aquece o coração. Encontramos o equilíbrio na medida em que acolhemos o que nos é ofertado sem dimiuir o valor do ato de doar. Demandar atitudes que atendam às nossas expectativas adoece, porque a linguagem na qual amo e me sinto amada é tão peculiar que dificilmente ela é a mesma da sua. Como seres únicos que somos, precisamos ter a habilidade de ressignificar o gesto do outro para entender a magnitude com a qual somos amados sob o olhar dele.

O fato é que na linha do tempo os relacionamentos se solidificam, ou se enfraquecem, nos desafios que enfrentam. Conhecer uma pessoa é o que me torna capaz, afinal, de amá-la verdadeiramente – abraçando consciente suas qualidades e defeitos. Por isso, sem coexistência não há união: nas memórias colecionadas pelo convívio são fundamentados os ajustes basilares das nossas relações. Muito mais do que ceder, se relacionar é reconhecer as nuances particulares dos nossos momentos – do outro também – e respeitá-los.

E é então no ato de doar, conhecer, valorizar, ressignificar, compreender e respeitar que o amor, sólido pelo tempo, torna-se sólido na experiência de viver. A harmonia de se relacionar é sinônimo de acolher.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Meu mundo nada ouvinte



O que você sabe sobre Língua de Sinais Brasileira?

Hoje é dia nacional do Surdo, vamos aprender e compartilhar?

Ouvinte é como são denominadas pela comunidade surda as pessoas que não são surdas. Meu mundo é bem ouvinte e quase nada surdo. O meu marido é ouvinte, a minha família é ouvinte, os meus amigos são ouvintes, trabalho com ouvintes e, resumindo, a vida fora de mim é ouvinte. Meu eu, no entanto, é surdo. Para evitar problemas de comunicação e prejulgamentos sobre mim, sempre procuro explicar minha condição a quem acaba de me conhecer. Normalmente, falar sobre isso gera uma avalanche de perguntas. É assustador como a maioria das pessoas com quem converso sabe pouco ou quase nada sobre surdez e Libras – e, quando pensa que sabe, acaba descobrindo que não.

Certo dia, numa reunião com um gerente de contas das redes sociais de uma livraria, perguntei quais elementos tornavam as páginas dela acessíveis. Ele relacionou alguns itens de acessibilidade para cegos e pessoas com baixa visão. Indaguei sobre acessibilidade para surdos, e a resposta foi: “Bem, está tudo em português, então eles podem ler”. De todas as situações com as quais já me deparei, a que mais me preocupa é a crença dos ouvintes de que o português é a ferramenta de acessibilidade para o surdo.
Vamos entender por que não?

Primeiramente, iremos, por favor, banir o termo “surdo-mudo” dos nossos dicionários. Na comunidade surda no Brasil, existem surdos oralizados e surdos libristas. Os primeiros, como eu, fizeram acompanhamento com fonoaudiólogos e foram treinados para aprender a falar. No meu caso foram quase dez anos de orientação fonoaudiológica. O surdo pode aprender a falar [1], e existem mecanismos para isso, como sentir as vibrações sonoras que ressoam em partes do nosso corpo (caixa torácica, nariz, garganta, bochechas). Na realidade, é um processo muito desgastante, mas possível. Os libristas comunicam-se somente por meio da língua de sinais brasileira e não se apoiam no uso de nenhuma língua oral: a língua materna deles é a de sinais. Dessa maneira, os surdos aprendem o português como uma segunda língua, assim como aprendem o inglês ou o francês os ouvintes que falam português. A Língua de Sinais Brasileira (LSB) não é como o Braille – um código que representa e traduz o português –, mas um organismo vivo: uma língua com distância linguística substancial do Português Brasileiro (PB). 

Vários pontos corroboram para o abismo entre a LSB e o PB, como as divergências encontradas em suas concepções linguísticas, lexicais, gramaticais e estruturais. Vejamos algumas dessas diferenças. 

Nas línguas naturais, a relação entre as palavras e as coisas é convencional, arbitrária. Por que a palavra garfo representa o material de garras com o qual se come? Por que as letras e o som da palavra garfo fazem você pensar nesse objeto? Em algum momento e de alguma forma, convencionou-se que a sequência de sons da palavra garfo designaria aquele objeto de garras com o qual se come, e não uma cadeira, aquele móvel no qual nos sentamos. As línguas naturais apresentam também o fenômeno da iconicidade. Quando digo que cachorro faz “au-au”, e relógio faz “tic-tac”, existe uma motivação sonora associando as palavras e as coisas. A LSB é mais icônica do que o PB, e nesse ponto reside uma sensível diferença entre eles, apesar de a primeira também possuir sinais arbitrários. E a iconicidade dela, é claro, não é baseada em motivação sonora, mas em motivação espaço-visual [2].  

Assim, o PB é uma língua oral que se manifesta por meio da escrita e da oralidade, ao passo que a LSB é uma língua espaço-visual que se manifesta por meio de sinais compostos por configurações de mãos, movimentos, expressões faciais, locais do corpo onde o sinal é produzido, e orientação da palma da mão. Partindo dessas premissas, é possível perceber que os usuários das línguas espaço-visuais e os usuários de língua oral expressarão seus pensamentos e sentimentos de maneiras extremamente distintas.

O compartilhamento mais significativo da LSB e do PB está no léxico. Porém, enquanto este tem idade quase milenar e mais de 200 mil palavras, aquela tem menos de dois séculos e uma quantidade infinitamente inferior de sinais. Imagine ler um texto de alta complexidade em uma língua que não é a sua. Você não teria dificuldade com o vocabulário? Assim se sentem os surdos frente ao português.

No artigo “Introdução à gramática de Libras”, Felipe (1997, p. 95) [3]  explica que na LSB “não há marca de tempo nas formas verbais; é como se os verbos ficassem na frase quase sempre no infinitivo. O tempo é marcado sintaticamente através de advérbios de tempo”. A frase Nós iremos para casa amanhã? seria traduzida pela sinalização “Amanhã + vamos + casa + expressão facial de dúvida”. A LSB tem uma gramática própria de línguas espaço-visuais e, por isso, não conta com vários elementos exclusivos de línguas orais, como artigos e preposições. 

Quanto a sua estrutura, a LSB é uma língua naturalmente topicalizada, enquanto no PB a ordem natural é SVO (sujeito + verbo + objeto). Em uma frase como “Ontem faltei aula” a ordem da sinalização seria “Ontem + aula + faltar”.

Existem estudos [4] que comparam os erros cometidos nas escritas produzidas por surdos e ouvintes cujo português é a segunda língua. Os especialistas identificaram que eles, além de adotarem estratégias parecidas para errarem menos – como escrever frases curtas e sem conectivos –, cometem deslizes bem similares.

Ao evidenciar essas diferenças, espero conseguir conscientizar e sensibilizar as pessoas sobre as muitas dificuldades do surdo com relação ao português e jogar alguma luz sobre o abismo que separa o mundo dos surdos e o dos ouvintes. O preconceito sofrido pelos surdos é enorme, e isso cria uma forte resistência de aceitação da língua majoritária. Ser surdo librista é viver como um estrangeiro no seu próprio país e ser obrigado, diariamente, a enfrentar barreiras de comunicação naquela casa que deveria ser a sua também.


[1] Por favor, levem em consideração que essa afirmação é bem genérica e existem variantes para que isso possa, de fato, acontecer.
[2] A Língua de Sinais Brasileira, como o gentílico já diz, não é universal – existem línguas de sinais americana (American Sign Language [ASL]), francesa, japonesa, e outras. Acredito que o equívoco se deve ao fato de os sinais da LSB serem interpretados como mímicas. A LSB tem uma gramática que rege a sua organização.  Assim como as línguas naturais, ela tem sinais arbitrários, cuja forma não tem correlação com o significado, em nada se assemelhando, portanto, com uma mera gesticulação. Saber que a língua é um fenômeno socialmente convencionado, nos permite entender que seria impossível haver somente uma língua de sinais no mundo – assim como é impossível haver só uma língua oral. Existe, no entanto, a tentativa de criação de uma língua mundial de sinais, o Gestuno (ou Sinais Internacionais), como é o Esperanto nas línguas orais.
[3] FELIPE, Tanya A. Introdução à gramática da Libras. In: BRITO, Lucinda F. et al. (Org.). Língua Brasileira de Sinais. Brasília: SEESP, 1997. v. 3. p. 81-107. (Série Atualidades Pedagógicas, n. 4). Disponível em: . Acesso em: 8 set. 2017.
[4] Ver, por exemplo, UM OLHAR sobre o texto do surdo. In: SALLES, Heloísa Maria Moreira Lima et al. Ensino de língua portuguesa para surdos: caminhos para a prática pedagógica. Brasília: SEESP, 2004. v. 1. p. 118-133. (Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos). Disponível em:
. Acesso em: 8 set. 2017.


Ps: Esse desenho super lindo é da Yasmin Hassegawa, obrigada querida!

terça-feira, 31 de maio de 2016

Sinceramente?




Nem Deus, ou se você prefere – o Universo, tirou de nós o livre arbítrio, quem, eu me pergunto, quem é você pra se achar dono do meu?

Eu vejo que o grande problema das pessoas é que elas estão sempre preocupadas com um buraco redondo que existe no meio da barriga: seus umbigos.

E é assim que surgem, às vezes sutilmente ou às vezes nem tanto, várias formas de preconceito. 

Eu detesto rosa. Odeio brincar de bonecas e não fazia questão nenhuma de agradecer se eu ganhasse uma. Também não sou muito fã de maquiagem: o último rímel que eu comprei faz um ano e está lacrado. "Mas você é menininha...".

Sou surda. No colégio todo mundo me chamava de lerda porque eu simplesmente não consigo acompanhar uma conversa onde trinta, ou só seis, pessoas falam ao mesmo tempo. Dois professores, um de dança e um de teatro, me humilharam porque ao me chamarem, não respondi – eu estava com meu aparelho desligado e não ouvi. Então eles simplesmente pensaram: que menina mal educada. Escolhi aprender Libras e muitas pessoas com quem eu convivo zombam da língua sem pensar que isto ofende. 

Estes são os preconceitos que eu já sofri... Mas existem tantos outros, muitos deles tão velados e por isso são mascaradamente inócuos. E não vamos falar de mais pesado ou mais leve porque para preconceito não existem nuances, ele é o que é: algo que ninguém deveria tolerar.

É tão simples... Mas cada vez mais raro encontrar aqueles que tenham capacidade de se colocar no lugar do outro – por menos preconceitos e umbigos, por mais tolerância e respeito.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Águas misteriosas




Um guerreiro quando sozinho
Vence batalhas do seu caminho
Mas quando numa guerra
Sem apoio cai por terra

Contra o cansaço
Só vence a compreensão

Contra a falta de tempo
Só vence a flexibilização 

Contra a força de vontade
Só vence a falta de mérito

E o ensino só é vitorioso
Onde não chega o orgulho, a soberba, e a intolerância 


terça-feira, 12 de abril de 2016

Valor que temos, qual?



Nunca terminei um namoro – eles foram terminados apesar de mim. A gente sente quando chega o fim: o desinteresse ascende no apagar das luzes. E no lugar de ir com o senso comum de que se ele não te valoriza, despreze-o, eu costumava pensar o que eu fiz de errado e no que poderia melhorar.

Então você me lê e pensa: nossa, que fraca. E eu respondo, porquê? Ora, se quando são derradeiros os momentos, recebendo a pior das atenções, eu consigo te dizer – olha como é grande o meu valor –, e ainda assim tu me desistes, então eu não tenho do que me arrepender. Porque uma coisa é certa: o meu valor reconheço em mim mesma e não em ti. 

Saber que eu dei o melhor de mim nos momentos bons e nos ruins é o meu lema moral. Saber que me olhei no espelho, e não pro meu umbigo, e me perguntei se precisava pedir perdão é o que me faz sentir ter crescido. Se te estendo a mão e não me alcanças, o que é possível fazer? Não depende só da gente.

Faz tempo eu escrevi sobre a pior morte ser de alguém que não está quando já tanto esteve, mas vive. É raro perceber que nem sempre alguém pode oferecer tudo o que você quer e pede. É uma forma de egoísmo e autopreservação incompreensíveis porque se somos todos singulares, como pode sentirmos e reagirmos em homogeneidade? As pessoas se perdem nesse caminho.

Faz tempo eu escrevi sobre a amizade ser compreensão e não obrigação. Não guarde mágoas e rancores porque não alcançaram a tua mão, se não há mais nada que pudesse ter sido feito. Baste-se reconhecendo seu próprio valor, sem se achar melhor do que os outros, e assim prevalece o respeito – por si e pelos outros.

Afinal pouco importa o onde, o modo, ou o tempo... Quando dois corações se reconhecem, respeitam e amam com pureza, o universo os une inquebrantavelmente.

domingo, 10 de abril de 2016

Metade


Amor, navegamos tranquilos
No curso natural da vida
Cada qual com seu estilo
De encarar nossa lida
Porque nossa sinfonia
Se perfaz com alegria
Compreensão, respeito e harmonia

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Laços



No permeio
Desses anseios
De quem se esmera
Inquieta espera
De uma conquista enfim

terça-feira, 5 de abril de 2016

Passos



Que longo o passo que vem
Mas se ele me tem (reservado)
Uma lágrima que me ablua
E um sorriso que me nutra
É em si fundamentado
E basta

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Tempo amigo nosso

O tempo é nosso amigo. Todo o conhecimento que temos um sobre o outro é uma jóia rara e preciosa que ele nos deu. No tempo transformamos nossos laços de amor e intensificamos a certeza de que um sem o outro não há. Foi nele em que estabelecemos uma relação de diálogo e crescimento constante, buscando sempre o melhor de nós mesmos. O carinho, o respeito e a confiança inconfundíveis em nós foi o tempo quem solidificou.

Mas nada disso teria sido possível, meu grande e eterno amor, se não fosse o nosso companheirismo e a vontade que temos de fazer um ao outro felizes. Ah, o tempo... Aprendemos tanto com ele! Soubemos respeitar nossas diferenças e assim identificar nossos defeitos e qualidades – dessa maneira procuramos evoluir cada dia uma pouquinho mais cedendo, perdoando e amadurecendo.

O relógio é um presente tão simples perto de tudo o que ele significa... Eu tenho TANTO orgulho da nossa história, de tudo o que construímos e conquistamos. Você é uma fonte de inspiração pra mim. Eu não me canso de te admirar. Que sorte a minha!

Chorei de alegria te escrevendo na certeza de que o tempo permanecerá um grande amigo e de que nossas conquistas na vida a dois serão ainda mais raras e preciosas.
"Olha eu te amo tanto e você sabe. Sou capaz de tudo se preciso, só pra ver brilhar a todo instante no seu rosto esse sorriso".

Te direi meu sim eternamente.

sábado, 26 de dezembro de 2015

O olhar da descrença

Vi outro dia que vocês se separaram. Como tantos outros que acabo acompanhando pelas redes sociais, torcia por vocês, mesmo sem ser muito íntima, mesmo sem conhecê-los direito. Sempre me dói. Eu fico me perguntando, por quê? É que vocês especificamente tinham uma longa jornada. Superaram alguns sustos, outros desafios, e têm um elo sorridente que os unirá pra sempre.

Eu invariavelmente comecei a refletir sobre relacionamentos. Por quê eles acabam? Às vezes começam por motivos frágeis: medo de ficar só, dinheiro, comodismo, interesses interpessoais... São muitos. E se começou sólido, quando as promessas deixam de fazer sentido? Por quê o para sempre perde lugar para o enquanto durar? A verdade é que o tempo se encarrega de muitas mudanças se não há espaço para o diálogo. Situações mal resolvidas transformam as qualidades em defeitos, a paciência em intolerância, a confiança em descrença e a harmonia em desequilíbrio. Os sentimentos negativos cegam, e não sobra nenhum espaço para o perdão, nem para o amor. Muitas vezes jogamos no lixo uma caixa inteira de frutas só porque uma ou outra apodreceram.

É tão comum cobrar e julgar o próximo sem ao menos olharmos no espelho. O grande mal da humanidade é eu querer que você aja e reaja igual a mim, porque a minha concepção de mundo é verdadeira demais para que eu tente compreender a sua. Se sou fiel a minha crença, contribuo como posso e faço o que acho que me é devido, então cumpri a minha parte – e se você não me conhece profundamente, não tem direito algum de cobrança. E é tão comum sermos sumariamente rotulados por nossas escolhas porque soberba a gente vê de sobra por aí. Soberba é aquela mania que alguns têm de se acharem melhor que os outros e de serem juízes de histórias que não lhe pertencem.

Um atitude bem pequena ou uma palavra tão comum podem nos aproximar ou afastar das nossas relações mais próximas. Eu quero pra mim e pra você um ano novo com mais tentativas de compreensão do que julgamento e com mais tolerância, humildade, perdão e amor. É muito mais fácil escrever do que fazer... O que não pode é deixar de tentar – por mais resgates e menos abandonos.

sábado, 24 de outubro de 2015

A rocha

Nos braços
Abraço
Cheiro de casa

Um facho
De aço
Que me dá asas

Me pegue e
Me leve
Eternamente

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Deus?

Esses dias eu estava cantarolando uma música que o padre da minha igreja cantava sempre na homilia da missa, dizia assim: "dai-me um coração igual ao teu meu mestre / coração disposto a obedecer / cumprir todo teu querer / dai-me um coração igual ao teu". Um ateu ouviu e perguntou se a mim não incomodava que a música – ou a igreja, como entendi – pregasse a submissão. Respondi – submissão, onde? Ele respondeu – essa coisa de obedecer e cumprir o querer. Perguntei a ele se ele achava submissão a obediência que deve a seus pais. Ele não respondeu. Complementei dizendo que Deus está para nós, assim como nossos pais estão para nós. Pareceu-me convencido porque respondeu – é por isso que eu gosto de conversar com você.

Mas minha intenção não é falar de igreja, religião ou não religião. É que lembrei-me hoje de um dia que alguém me disse que "isso de sete pecados capitais é uma bobagem". Os sete pecados, sendo dogmas ou não, dizem muito sobre o mundo de hoje e as pessoas não se dão conta de que com meras palavras ou (não) ações tornam suas rotinas mais desagradáveis.

Você pensa que preguiça é ficar na TV o dia todo ou dormir até mais tarde todo dia? Na verdade é falta de vontade pra ajudar quando alguém pede – às vezes é uma coisa bem ridícula que faz a gente perder cinco minutos do nosso tempo e mesmo assim praguejamos.

Porquê não podemos enxergar na ira a falta de paciência que a contemporaneidade de um mundo cada vez mais veloz expande? Acho que o melhor reflexo disso é o trânsito – como as pessoas são violentas lá. Mas tem outros exemplos que podemos achar bestas, e não acho que sejam menos graves... Como quando aquele avô passa o dia ditando "não faça isso meu filho, vai te fazer mal" e você faz o quê? Pragueja.

Avareza não é só sobre dinheiro... É sobre doação de si mesmo – até que ponto chega o egoísmo das pessoas que economizam sentimentos?

Inveja pra mim é o mal do século. Não esse mimi de que as pessoas são falsas, querem tudo o que eu tenho e falam pelas costas – disso até a antiguidade tava cheia. Tá faltando é gente pra sentir-se genuinamente feliz com a conquista alheia – daqueles amigos que você cultiva a vida toda e sabe que torce por você.

E soberba que todo mundo fala que é orgulho ditando que você é melhor que os outros... Eu diria, com melhores palavras, que parece mais com falta de humildade para reconhecer os próprios erros. 

Quantas vezes você se olhou no espelho e reconheceu todas as suas falhas – no dia ou na vida? Quantas vezes você as repetiu? Uma vez eu ouvi uma pessoa dizendo a outra "isso aí não vai adiantar nada", enquanto ela respondeu "eu prefiro ser um grão no meio de nada, do que ser um nada no meio de nada".

Às vezes eu me pergunto quantas vidas são necessárias para se aprender a prática em vez da teoria. É bem mais difícil fazer do que falar.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O galho


A seca secou minha emoção
O galho florido, foi seco no chão

A seca secou a minha razão
O galho seco não tem salvação

A chuva choveu no meu coração
Nos olhos escorreu minha oração

O galho secou, o galho floriu
Ora penou, ora sorriu

A vida assim, ciclo sem fim

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Refrescante



Um refresco para a vida é...
Final de semana, relaxar
Cochilo com chuva, descansar
Viagem nas férias, passear
Rever os amigos, papear
Escutar uma música, dançar
Semear um carinho, abraçar
Beijos de amor, amar

Ver o mundo melhor do que ele é, acreditar

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Professor é quem...

Ensina? Ao pé da letra, só. Dentro de um universo de missões, ensinar é uma entre muitas outras. Professor é quem te dá asas e ainda te ensina a voar.

Educa? Também. Se educar, é dar exemplo, quer melhor do que ser um professor? Professor não sabe tudo, mas compartilha tudo que sabe.

Acredita? Conheço muitos que têm por sobrenome perseverança. Professor é quem não desiste de você.

Briga? Diariamente. São guerreiros imbatíveis: por seus alunos, por melhores condições de trabalho e por reconhecimento.

Acima de tudo, professor é quem ama. Toda a arte das missões que carrega um professor é dominada porque eles têm amor ao ministrá-la.

A todos os professores que inspiraram a minha vida, em especial a você mamãe.


Você foi e é a professora mais importante da minha vida. Falar é uma vitória que a sua dedicação tornou possível. Crescer, vencer meu preconceito e me aceitar como sou, só se concretizou por causa da sua sabedoria e paciência. Eu ter acesso a tecnologia de ponta e desfrutá-la, mesmo com limitações, barreiras e dificuldades, só é realidade porque você perseverou e insistiu. Chegar onde cheguei só o fiz porque você nunca deixou de acreditar em mim.
Deus te deu a missão de ser minha mãe porque sabia que não poderia ser outra que não a melhor professora que já vi na vida.

Te amo, feliz dia dos professores.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Livre!

Dentro de ti
Virei aprendiz da vida
Mas hoje, te quero
Como nunca quis, querida

Foi mais fácil do que pensei
Dizer adeus
Meu pensamento jamais
Verdadeiramente te pertenceu

Não sinto falta da briga de egos
E da intelectualidade sem fim
Mas da beleza da sua natureza
E dos amigos, isso sim

Foi bom te viver
E ter que ler
Coisas que nunca leria

Preciso dizer
Você me fez ver
Coisas que nunca veria

Não me odeie
Não te quero mal
Só quero que meus muitos 'até logo'
Transformem-se num belo 'tchau'

Você foi muito importante
Na minha história
Mas nosso final
Não tem escapatória:

"Valeu, foi bom, adeus"

UnB sua linda, não te pertenço mais.
Poeminha tosco para expressar a felicidade da minha liberdade.

domingo, 28 de julho de 2013

Até logo?

É possível viver uma vida inteira de adeus, e nunca aprender a dar um? É fato consumado que no curso do tempo temos que nos despedir de muitas coisas, e na grande maioria das vezes não há escolha.

Guimarães Rosa disse que despedir dá febre. Dá febre porque ninguém escolhe se despedir, a vida é assim mesmo. Por maior que sejam as nossas crenças, por mais fortes que sejamos, ou por mais que você tente se preparar... Nunca estamos prontos pra dizer adeus. Cada pessoa se despede no tempo de Deus.

Despedir-se dá febre, mas febre dá e passa. Só fica doente da saudade, quem deixar o amor calar.

É como quando a gente viaja pra algum lugar que é como um lar: na hora de despedir a gente tenta se convencer que é um até logo, mas sente como se fosse um adeus. De tanto vir, sabemos que um dia não haverá para onde voltar, senão só para as lembranças do nosso coração.

O percurso do tempo é mutante: a gente dá as boas vindas, compartilha, se despede, e espera voltar um dia de novo. Porque pra aprender, a vida é infinita.

domingo, 30 de junho de 2013

Poesia a dois


Você sabe que gosta de alguém quando a companhia dele te faz bem; quando conversar com ele é tão agradável que nem se vê o tempo passar; quando escolhe ele pra ser seu companheiro de cinema; e quando até estudar as matérias chatas de ensino médio fica menos tedioso do lado dele (eu e você-amigo, quando a gente se conheceu).

Você sabe que ama um amigo quando percebe que escolheu ele pra vida toda e imagina-o comemorando junto a ti todas as etapas que ela tem; quando é ele seu ombro amigo, seu porto seguro; quando você o admira cada vez mais, à medida que o conhece; e quando vê que o sorriso dele faz o seu também (eu e você-melhor-amigo).

Você sabe que gosta de um homem quando uma mensagem dele causa borboletas na barriga; quando vê ele, lindo e perfumado, e seu coração bate mais forte, desejando um beijo; quando passa a querer que ele estivesse com você em qualquer ocasião; e quando torce pra ver ele todos os dias, ganhar um abraço e sentir seu cheirinho (eu e você-namorado).

Você sabe que se apaixonou por um homem quando se sente a mulher mais feliz e amada do mundo só porque ele te olhou diferente, colocou a mão na sua cintura, fez um carinho no seu cabelo, ou abriu a porta do carro pra você; quando o desejo, a saudade e a felicidade parecem não caber dentro do seu peito e você quer cantar pro mundo seu sentimento; quando estava desacreditado e começa a acreditar que o amor existe; e quando, deitada e acolhida em seus braços, todos os problemas desaparecem e seu coração se enche de calma (eu e você-príncipe).

Você sabe que ama um homem quando percebe que ele não é perfeito, mas o ama tanto quanto se fosse; quando vê nele um companheiro para as horas boas e ruins; quando não tem dúvida de que juntos vocês podem enfrentar qualquer coisa; quando está disposta a ser uma pessoa melhor por ele e vê que ele faz o mesmo por você (eu e você: o homem da minha vida).

Na poesia a dois, o amor é dualista: ora é utópico, ora realista. A chave do segredo é saber dosar: enquanto a fantasia adoça o sentimento, a realidade conduz o relacionamento.

Obrigada por quatro anos de maravilhas e realidades.

Te amo, Lê.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Andando na rua

Fim de tarde e de expediente. O sol se punha majestoso dando um espetáculo naquele dia frio de inverno. Melissa pegou suas coisas, desejou a todos um bom fim de semana e entrou no carro para ir embora.

O caminho para a academia era nada agradável. Muitos carros na rua e era preciso ter paciência com a lentidão tartaruguetária daquela hora. Mas às vezes o que mais incomodava mesmo eram as lembranças. Passava todo dia pelo parque de Ana. Lá vivera aventuras infantis: o medo do foguete, o balanço alto demais, e os escorregas que faziam cócegas na barriga.

O caminho da academia margeava todo o parque. O parque lhe trazia tantas memórias... Mel lembrava muito bem do dia que subiu numa árvore para apreciar um belo sorriso. Aprendeu que bater num poste dava muito mais dor de cabeça do que só o carro para consertar. E em meio às ruínas de um castelo, ganhou um beijo. Um beijo doce.

Pior foi um dia, que quando passava pelo banco escondido das árvores, a rádio cantou Veloso e ela lembrou de si mesma cantando: quando a gente gosta, é claro que a gente cuida. Sem entender o porquê de partirem seu coração, ela indagava-se como foi que o doce podia ter se transformado em amargo.

Naquele dia, na ida para a academia viu uma mulher atravessando a rua. Cabelos curtos - castanho escuro -, de saia e blazer pretos e de andar cansado em cima dos saltos. Na mão que segurava o celular ao ouvido, uma aliança prata. Na vida existem tantos encontros e desencontros, e muitas vezes a gente não sabe explicar o porquê das coisas. Melissa a viu atravessar a rua... A moça tinha nos lábios um sorriso de quem tem um beijo doce quando chega em casa. Do outro lado da linha, Melissa não podia ouvir, mas sabia que era o moço do beijo amargo.

Já se pegou indagando que as coisas acontecem e você não consegue acreditar que é pura coincidência? Pra quem é cético, o mundo não tem mistério nem magia. Mas pra mim não restam dúvidas de que os sentimentos e pensamentos possuem uma força magnética que o ser humano desconhece. 

Cada pessoa que passa na nossa vida deixa um rastro, uma lembrança, uma lição. E quando elas deixam de fazer parte da sua rotina, o que fica é um sentimento. Com o tempo, ele apaga ou perdura.  Só depende do que ela significou pra você: uma passagem ou uma presença, é o que faz a diferença entre ser esquecido ou permanecer na lembrança.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Infantil

Era uma vez um menino imbecil
A mãe disse - faz isso não, cuidado
E não deu outra, ele fez e caiu
Cortou a língua e ficou tudo inchado
O resultado?
Um bom tempo sem conseguir comer e se fazer entender

Era uma vez um menino imbecil
A mãe disse - por favor, faz assim não
Mas... Ele foi lá e? Fez. Pra mãe ele riu
Caiu e bateu com a cabeça no chão
Como se saiu?
Corre pro hospital, tá passando mal? Fica em observação...

Era uma vez um menino imbecil
A mãe disse - quer fazer? Vai lá e faz
Foi lá e fez, nada adiantava mais
Dessa vez foi um olho roxo que ficou
Mas a essa altura, ninguém se preocupou

Era uma vez um menino imbecil
A mãe já não dizia mais nada
Porque esgotou-se de ficar preocupada

Era uma vez um menino IMBECIL
Ele decidiu a vida que seguiu
A mãe visitou-lhe no caixão
Deu-lhe um adeus e o perdão

Afirmar que não se pode deixar o comportamento alheio te perturbar é fantasia. O ser humano é um poço de críticas... Alguns se afundam nelas, ficam cegos e acreditam que só as suas verdades valem. Outros sabem politizar, mas não sem ter a sua própria opinião. O restante, que não é nem um, nem outro, só passa pela vida sem deixar a marca das suas pegadas.

Conter um grito de raiva é tão difícil quanto tentar lidar com o que você não acredita. A diferença é que aquele extravasa enquanto este pondera. E às vezes não é simplesmente uma questão de escolha: se seu coração sente e a mente concorda, acorda... Você já perdeu.